O CORPO?

Sim. É o corpo humano que nos coloca em contato direto com o mundo onde vivemos.

Ele é o responsável por nossa capacidade de observar, perceber, compreender e escolher o que necessitamos e desejamos no mundo.

Nosso corpo é a casa onde moramos. Somos o único proprietário das chaves desta casa, que deveria ser a parte mais importante do nosso patrimônio.

Foi o nosso corpo que captou e armazenou tudo que nos transformou no que somos hoje.

Por tudo que nosso corpo representa em nossa existência, precisamos deixá-lo reaprender continuadamente a arte do fazer e do caminhar humano pela vida.

A vivência das habilidades do fazer e do caminhar é que dará ao nosso corpo inteligência sensorial e respiratória necessária para nos tornarmos cada vez mais aptos a executar as atividades que garantem a existência nossa de cada dia.

Nosso corpo não foi concebido para agir contra a sua natureza. Ele sempre teve e terá autonomia para não aceitar nenhuma forma de adestramento que venha a lhe submeter. Porém ele é inteligente e adaptável o suficiente para criar hábitos para se defender da repetição de movimentos incoerente à sua vontade natural.

É de nossa total responsabilidade, tornar nosso corpo capaz de perceber as sensações do mundo que nos rodeia.

E, é a percepção destas sensações que dá autonomia ao nosso corpo para viver com qualidade no ecossistema terrestre, seu habitat natural.

O nosso corpo jamais deveria ser percebido como uma máquina maléfica, que nos conserva à sua mercê.

A seguir gostaria que vocês lessem e relessem o poema de Drummond posto abaixo.

“As Contradições do Corpo” de Carlos Drummond.

“Meu corpo não é meu corpo

É ilusão de outro ser

Sabe a arte de esconder-me

E é de tal modo sagaz

Que a mim de mim ele oculta

Meu corpo, não meu agente

Meu envelope selado

Meu revólver de assustar

Tornou-se meu carcereiro

Me sabe mais que me sei

Meu corpo apaga a lembrança

Que eu tinha de minha mente

Inocula-me seu patos (sua capacidade de sentir)

Me ataca, fere e condena

Por crimes não cometidos

O seu ardil mais diabólico

Está em fazer-se doente

Joga-me o peso dos males

Que ele tece a cada instante

E me passa em revulsão

Meu corpo inventou a dor

A fim de torná-la interna

Integrante do meu id

Ofuscadora da luz

Que aí tentava espalhar-se

Outras vezes se diverte

Sem que eu saiba ou que deseje

E nesse prazer maligno

Que suas células impregnam

Do meu mutismo escarnece

Meu corpo ordena que eu saia

Em busca do que não quero

E me nega, ao se afirmar

Como senhor do meu eu

Convertido em cão servil

Meu prazer mais refinado

Não sou eu quem vai senti-lo

É ele, por mim, rapace (roubasse, tomasse)

E dá mastigados restos

À minha fome absoluta

Se tento dele afastar-me

Por abstração ignorá-lo

Volta a mim, com todo o peso

De sua carne poluída

Seu tédio, seu desconforto

Quero romper com meu corpo

Quero enfrentá-lo, acusá-lo

Por abolir minha essência

Mas ele sequer me escuta

E vai pelo rumo oposto

Já premido por seu pulso

De inquebrantável rigor

Não sou mais quem dantes era

Com volúpia dirigida

Saio a bailar com meu corpo”

Depois de lermos e relermos Drummond:

Antes que nosso corpo comece a nos levar desajeitadamente pela vida;

Comece a nos transformar numa fonte geradora de dores e sofrimentos;

Que ele nos torne incapaz de executar nossas atividades diárias de forma suave e com gestos seguros;

O que me acalente neste instante, é pensar que nosso corpo é feito de matéria flexível, maleável e com a capacidade intrínseca de perceber naturalmente o que está ao seu redor.

É alentador poder dizes aqui, que precisamos apenas ocupar nosso corpo com atividade que possam disponibilizar a ele cotidianamente as energias vitais do bem estar e do prazer de viver, para que ele volte a ser uma moradia confortável para a alma do nosso ser.

Um beijo no coração de todos, Luiz Carlos Faria.

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